
O banqueiro Daniel Bueno Vorcaro relatou, em depoimento prestado sob sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF), que recebeu ameaças durante os deslocamentos realizados após sua prisão. Segundo ele, enquanto era conduzido para uma penitenciária federal, ouviu uma advertência relacionada às pessoas que chamou de “patrões”.
“Quer mexer com os patrões, agora sua vida vai virar um inferno.”
O relato foi feito durante audiência determinada no âmbito da Petição 16.653, apresentada pela defesa ao ministro do STF André Mendonça. O objetivo formal do ato era colher informações sobre as supostas intimidações relatadas por Vorcaro.
Vorcaro afirmou que interpretou a transferência e o isolamento como parte de um contexto que teria dificultado sua intenção de colaborar com as investigações.
Segundo ele, ficou quase dez dias sem conseguir acesso aos próprios advogados e foi mantido inicialmente em isolamento. O banqueiro também descreveu condições que considerou humilhantes ao chegar ao presídio federal.
Por que Vorcaro diz que queria fazer uma colaboração?
Durante o depoimento, Vorcaro afirmou que procurou autoridades por iniciativa própria para apresentar sua versão dos fatos. Ele disse que procurou o Ministério Público e a Polícia Federal e que, em sua avaliação, houve diferença significativa entre a receptividade encontrada na Procuradoria-Geral da República e aquela que teria recebido de integrantes da PF.
O banqueiro afirmou ainda que vinha tentando ser ouvido havia meses e que pediu reuniões para discutir uma possível colaboração.
Segundo seu relato, algumas reuniões não foram realizadas e, quando seus advogados eram recebidos, o tratamento seria apenas protocolar. Questionado diretamente pelo juiz se algum delegado o havia ameaçado pessoalmente, Vorcaro respondeu que não.
A distinção é importante: no depoimento, Vorcaro reclama de suposta resistência à sua colaboração, mas não afirma que um delegado tenha feito uma ameaça pessoal diretamente contra ele.
Banqueiro diz que colaboração poderia atingir pessoas do governo Lula
Um dos trechos de maior impacto político aparece quando o representante do Ministério Público Federal pergunta se as relações mencionadas por Vorcaro faziam parte dos fatos que ele pretendia revelar em uma eventual colaboração.
A resposta foi afirmativa. Vorcaro afirmou que os nomes que pretendia apresentar estariam relacionados a pessoas que integram, segundo ele, o “núcleo do atual governo”. Ele disse que algumas relações foram construídas inicialmente como uma forma de proteção diante das pressões que enfrentava.
O banqueiro afirmou que, nesse processo, teria presenciado situações que, na avaliação dele, ultrapassaram limites éticos e legais.
Ele, porém, não detalhou nessa audiência todos os fatos nem apresentou naquele momento uma relação completa dos nomes que pretendia citar.
Vorcaro cita relação anterior com diretor-geral da PF
Ao explicar por que considerava difícil realizar uma colaboração pelo modelo tradicional, Vorcaro mencionou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Segundo o depoente, os dois mantiveram uma relação anterior à investigação. Vorcaro afirmou que Rodrigues participou de eventos relacionados ao crescimento do Banco Master e que chegou a viajar com ele para eventos, inclusive acompanhado da namorada.
O nome de Andrei Rodrigues surgiu novamente quando o advogado perguntou se ele estaria entre as pessoas que poderiam aparecer em uma futura colaboração.
Vorcaro respondeu que sim, mas dentro do contexto das relações que havia construído e das situações que pretendia explicar.
O depoimento, contudo, não afirma que Andrei Rodrigues tenha cometido crime. A referência feita por Vorcaro está relacionada às relações que ele diz ter mantido e aos fatos que afirma pretender detalhar em uma colaboração.
Ele acusa direcionamento da investigação e vazamentos
Vorcaro também apresentou uma crítica mais ampla à condução da investigação.
Na avaliação dele, integrantes da Polícia Federal estariam levando o caso para determinada direção e utilizando vazamentos à imprensa para influenciar a narrativa.
Ele afirmou que tanto a PGR quanto o gabinete do ministro e ele próprio estariam sendo influenciados por essa dinâmica.
O banqueiro fez questão, entretanto, de dizer que não estava acusando a Polícia Federal como instituição.
A crítica, segundo ele, seria direcionada a pessoas dentro da estrutura que estariam dificultando o acesso às informações que pretendia fornecer.
“Só a verdade” seria capaz de mudar o caso, diz banqueiro
Em outro momento, Vorcaro afirmou que não queria apresentar naquele ato todos os detalhes por causa do temor relacionado à própria segurança e à de sua família.
Ele declarou que possui fatos e provas que pretende apresentar posteriormente e que a impossibilidade de falar, segundo sua percepção, seria justamente um indicativo de que existiria resistência à sua colaboração.
Em meio ao relato, resumiu sua disposição com a frase:
“Só a verdade hoje vai me libertar.”
Vorcaro também afirmou que não se considera inocente de todos os erros e que pretende apresentar aquilo que reconhece ter feito de errado, mas sustenta que a narrativa existente sobre sua atuação não corresponderia integralmente aos fatos.
Da disputa econômica à acusação de perseguição política
O depoimento também apresenta a versão de Vorcaro sobre a trajetória do Banco Master.
Ele afirma que inicialmente enfrentou pressões econômicas e concorrenciais e que, posteriormente, essas pressões teriam adquirido uma dimensão política.
O banqueiro também questionou mudanças regulatórias que, segundo sua avaliação, teriam dificultado a atuação de instituições menores e favorecido a concentração do mercado bancário.
Em determinado momento, afirmou que recebeu de um concorrente o aviso de que deveria deixar o mercado. Posteriormente, segundo seu relato, teria ouvido uma ameaça extremamente grave relacionada à sua permanência no setor.
A partir daí, Vorcaro diz ter buscado construir relações com pessoas influentes como forma de proteger o banco e a si próprio.

