
O município de Coari, no interior do Amazonas, recebeu R$ 35.662.425 em Emendas Pix indicadas pelos senadores Plínio Valério (PSDB) e Omar Aziz (PSD) entre 2023 e 2024, enquanto auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU) identificaram irregularidades na aplicação de parte desses recursos. O levantamento ganha contexto nesta quarta-feira, 16, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Dinastia do Lago, que investiga possíveis fraudes em licitações, desvios de recursos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro na administração municipal de Coari.
Do total identificado no levantamento, R$ 6.712.425 foram destinados por Plínio Valério em uma transferência especial de 2024, enquanto R$ 28.950.000 foram indicados por Omar Aziz em três Emendas Pix registradas nos exercícios de 2023, 2024 e 2026.

A emenda de Plínio Valério é identificada pelo número 202441370005 e corresponde ao exercício de 2024. Segundo os registros reunidos no levantamento, o recurso foi empenhado no valor de R$ 6.712.425 por meio da Nota de Empenho 2024NE001053, emitida em 26 de junho de 2024, e a liberação financeira ocorreu em 3 de julho daquele ano. Na fiscalização do TCU, a transferência destinada por Plínio a Coari apresentou superfaturamento de R$ 82.603,40 na aquisição de bens. O apontamento integra a auditoria nacional sobre a aplicação das Transferências Especiais.

Emendas de Omar e perda de rastreabilidade
Omar Aziz destinou R$ 10 milhões a Coari em 2023. Na execução desse recurso, o TCU identificou superfaturamento de R$ 4.898,22 e constatou que valores relacionados a licitações foram movimentados fora da conta bancária específica da emenda, por meio de chamadas “contas de passagem”, dificultando o rastreamento do dinheiro.
Em 2024, Omar destinou outros R$ 9 milhões ao município. A fiscalização, porém, identificou movimentações financeiras que chegaram a R$ 9,02 milhões e constatou que, entre julho e setembro daquele ano, todo esse valor foi transferido da conta específica da emenda para contas ordinárias da Prefeitura de Coari.
Segundo o TCU, a transferência para contas gerais do município impediu a comprovação do vínculo entre os recursos federais e a execução das metas previstas. Por causa das irregularidades, o tribunal determinou a abertura de Tomada de Contas Especial e a citação de gestores e servidores envolvidos na execução dos recursos.
A auditoria também apontou problemas em contratos pagos com o dinheiro da emenda. Em um deles, de R$ 1,63 milhão, destinado à locação de máquinas e caminhões, foram identificadas falhas na documentação das despesas e na comprovação dos serviços; em outro, de R$ 3,73 milhões, para fornecimento de combustíveis, o controle do abastecimento foi considerado insuficiente.

Entre os citados pelo TCU estão o ex-prefeito de Coari, Keitton Wyllysson Pinheiro Batista, além de Diego Guimarães da Silva, Luiz Franklin Chaves de Andrade, Klayton Ferreira dos Santos e Cleyson da Silva Dantas. Os responsáveis foram chamados a apresentar defesa ou responder pelo débito apontado pelo tribunal.
Omar também destinou R$ 9,95 milhões a Coari em 2026, em uma terceira transferência especial registrada no Transferegov. Esse recurso aparece no levantamento cadastral, mas não integra os valores de 2023 e 2024 já submetidos às auditorias financeiras mencionadas.
Operação Dinastia do Lago
A fiscalização dos recursos ocorre em um contexto mais amplo de investigações sobre a administração de Coari. Em 16 de setembro de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação Dinastia do Lago, por determinação do STF, com 29 mandados de busca e apreensão e medidas cautelares em Manaus e Coari para apurar possíveis fraudes licitatórias, desvio de recursos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro.
A investigação começou após a apreensão de aproximadamente R$ 1,25 milhão em dinheiro vivo, transportado por três empresários em um voo entre Manaus e Brasília, em maio de 2025. De acordo com a Polícia Federal, a análise de documentos, dispositivos eletrônicos e movimentações financeiras passou a indicar possível atuação coordenada entre empresários, agentes públicos e terceiros ligados à administração municipal.
No âmbito da operação, o prefeito de Coari, Adail Pinheiro, foi afastado do cargo por determinação do STF, enquanto também foram cumpridas medidas contra servidores e outros investigados. A PF informou que apura se empresas foram utilizadas em licitações direcionadas e se recursos públicos foram movimentados para pagamento de vantagens indevidas ou para ocultar a origem e os destinatários dos valores.
A investigação criminal também se relaciona ao PET 15.889/DF, no STF, que teve origem na apreensão do dinheiro no aeroporto de Brasília. Peças do procedimento registram que empresas vinculadas aos investigados mantinham contratos com o município de Coari e que documentos e dispositivos apreendidos passaram a ser analisados para verificar possíveis repasses financeiros a agentes públicos e terceiros.

