Segundo o secretário Marcus Vinícius Almeida, líderes da facção pagam até R$ 150 mil por mês a traficantes cariocas para se proteger e comandar o crime à distância

Chefes do Comando Vermelho (CV) que atuam no Amazonas estão escondidos em comunidades nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. Lá, eles pagam de R$ 50 mil a até R$ 150 mil por mês a traficantes cariocas para se proteger de ações da polícia e fazer “home office do crime”. As informações são do Estadão e foram confirmadas pelo secretário de Segurança Pública do Amazonas, Marcus Vinícius Almeida, que classificou os locais como “condomínios do crime”.
De acordo com Marcus Vinícius Almeida, os 13 principais líderes do CV no Amazonas estão refugiados nessas comunidades. Entre os chefes estão Sílvio Andrade Costa, o “Barriga”, considerado a maior liderança da facção no Amazonas, e Caio Cardoso dos Santos, o “Mano Caio”. Ambos seguem foragidos
“Chamamos lá (Penha e Alemão) até de ‘condomínio do crime’”, afirmou Marcus Vinícius Almeida ao Estadão. “O Comando Vermelho no Amazonas tem 13 líderes. A informação que temos é de que os 13 estão na Penha ou no Alemão”, completou.
Durante a megaoperação policial realizada nesta semana no Rio de Janeiro, sete amazonenses foram identificados entre os mortos. Nenhum deles seria um dos líderes do tráfico no estado, mas, segundo o Ministério Público do Amazonas (MPAM), tinham papel de comando em áreas de Manaus e da Região Metropolitana. A operação no Rio foi considerada a mais letal da história fluminense, com 121 mortos, mais de 100 presos e 90 fuzis apreendidos.
O promotor de Justiça Leonardo Tupinambá, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPAM, afirmou ao Estadão que entre os mortos estão Douglas Conceição, o “Chico Rato”, e Francisco Myller, o “Gringo”. Mesmo escondidos fora do Amazonas, eles continuavam ordenando crimes em Manaus.
“Matam com uma facilidade impressionante, com requintes de crueldade”, disse Tupinambá.
Ainda segundo o promotor, muitos desses criminosos comandavam o tráfico à distância, em uma espécie de “home office do crime”, e se abrigavam no Rio para fugir de mandados de prisão abertos no Amazonas. “Como quase todos eles já têm mandados, se refugiam lá”, afirmou.
O Gaeco estima que o Comando Vermelho é hoje a facção dominante na Região Norte, com forte presença no Amazonas e no Pará, controlando cerca de 90% dos territórios amazonenses. O grupo também domina a rota do rio Solimões, usada no transporte de drogas como cocaína e skunk. No Amazonas, são pelo menos 10 mil integrantes, sem contar criminosos que atuam de forma terceirizada, os chamados “consórcios”, formados por transportadores e aliados do tráfico.
O secretário Marcus Vinícius explicou que a migração das lideranças do CV para o Rio de Janeiro aumentou nos últimos dois anos, depois da prisão de nomes importantes da facção fora do estado. Um dos exemplos citados foi a captura de Ocimar Prado Júnior, o “Coquinho”, no Paraguai, em 2023. “Depois que começaram a ser presos fora da região, passaram a migrar para lá”, disse.
Relatórios da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) apontam que o CV está presente em quase todos os estados do país. A estrutura menos hierárquica da facção facilita a expansão e o controle de áreas distantes, como as da tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia.
Aiala Colares Couto, pesquisador da Universidade do Estado do Pará (Uepa), contou ao Estadão que o Pará foi a porta de entrada do CV na Região Norte, há mais de uma década. Segundo ele, o fortalecimento do CV no Amazonas começou por volta de 2017, quando a facção formou alianças com a Família do Norte (FDN), que até então dominava o tráfico local. Desde então, a facção carioca se tornou a principal força criminosa no Amazonas.

