Estudo com 453 alunos de escolas públicas de Manaus identificou trabalho pesado, atividades na construção civil e associação com abuso, insegurança alimentar e prejuízos na vida escolar.

O trabalho infantil continua presente na rotina de adolescentes de Manaus e aparece associado a diferentes formas de violência e vulnerabilidade social.
É o que revela uma pesquisa da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) realizada com 453 estudantes de 24 escolas públicas estaduais da capital.
O relatório “Experiência Adversa na Adolescência: um inquérito de base escolar sobre a ocorrência do trabalho infantil em Manaus, Amazonas” identificou que 50,8% dos adolescentes entrevistados já ajudaram em negócios da família.
Outros 24,5% relataram ter carregado cargas pesadas, como materiais de construção e móveis, enquanto 22,1% afirmaram já ter trabalhado em obras da construção civil.
Quais situações graves de trabalho infantil foram identificadas em Manaus?
O levantamento também registrou adolescentes expostos a atividades classificadas entre formas graves de exploração infantil.
Segundo os dados:
1,1% relataram envolvimento com o tráfico de drogas;
2% disseram ter recebido algo em troca de favores sexuais;
0,7% relataram participação em produções pornográficas.
Os números fazem parte dos relatos coletados pelos pesquisadores durante o inquérito realizado nas escolas estaduais de Manaus.
De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o trabalho infantil envolve atividades que privam crianças e adolescentes da infância, da dignidade e do pleno desenvolvimento, com impactos na saúde, educação e bem-estar.
Quantas crianças e adolescentes estão em situação de trabalho infantil no Amazonas?
No Amazonas, a estimativa é de aproximadamente 49 mil crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil.
A dimensão real do problema, no entanto, pode ser maior devido à subnotificação dos casos.
A coordenadora da pesquisa e líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Saúde e Violência da UEA (GEPSV/UEA), Nathália França, explica que a falta de dados locais dificulta a criação de políticas públicas específicas.
“A pesquisa foi motivada pela necessidade de compreender a ocorrência do trabalho infantil entre adolescentes de Manaus e sua relação com outras vulnerabilidades sociais, como violência, insegurança econômica e prejuízos à trajetória escolar”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, a subnotificação também dificulta a elaboração de políticas públicas efetivas de enfrentamento ao problema. Política
Qual é a relação entre trabalho infantil e violência?
A pesquisa mostra que o trabalho infantil raramente aparece de forma isolada na vida dos adolescentes entrevistados.
Entre os jovens que trabalham, 24,3% relataram abuso emocional, enquanto 19,4% afirmaram ter sido vítimas de abuso sexual e 18,3% relataram abuso físico.
Além disso:
32% convivem com violência comunitária;
27,4% relataram sofrer bullying.
Para Nathália França, um dos resultados mais preocupantes foi perceber a associação entre o trabalho precoce e outras vulnerabilidades sociais.
“O que mais nos surpreendeu foi perceber que o trabalho infantil não aparece como um fenômeno isolado, mas profundamente associado a outras vulnerabilidades sociais”, destacou.

