
Levantamento mostra que o piso nacional cobre apenas uma fração das despesas previstas na Constituição. Em Manaus, trabalhador precisa dedicar mais da metade de um mês apenas para alimentos
salário mínimo de R$ 1.621, em vigor no Brasil, está longe de garantir o sustento de uma família de quatro pessoas. É o que aponta um novo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, o Dieese, que calcula que o piso salarial necessário para atender às necessidades básicas dos brasileiros deveria ter sido de R$ 8.110,92 em junho de 2026, o equivalente a cerca de cinco vezes o valor atual.
O cálculo considera o que determina a Constituição Federal, que estabelece que o salário mínimo deve ser suficiente para cobrir despesas essenciais como alimentação, moradia, saúde, educação, transporte, vestuário, higiene, lazer e previdência.
O valor estimado pelo Dieese aumentou em relação ao mês anterior, quando era de R$ 7.999,44, refletindo principalmente a alta no custo dos alimentos.
Alimentação continua pesando no bolso
Segundo o levantamento, o custo da cesta básica aumentou em 17 das 27 capitais brasileiras durante o mês de junho.
“Em junho de 2026, o preço da cesta básica de Manaus apresentou alta de 0,64% em relação a maio e ficou em R$ 732,90. Em 12 meses, o valor acumulou elevação de 8,54%. Em 2026, registra alta de 18,13%”, diz trecho do estudo.
As maiores altas foram registradas em Boa Vista (3,28%), Palmas (3,01%), Rio Branco (2,20%) e Porto Alegre (2,18%).
São Paulo voltou a registrar a cesta básica mais cara do país, chegando a R$ 965,47. Na sequência aparecem Cuiabá (R$ 937,93), Rio de Janeiro (R$ 920,94) e Florianópolis (R$ 918,42).
Já os menores custos foram encontrados em Aracaju (R$ 630,40), São Luís (R$ 654,73), Maceió (R$ 671,41) e Natal (R$ 696,08).
Mesmo nas capitais onde alguns produtos ficaram mais baratos, o custo da alimentação segue elevado e continua comprometendo grande parte da renda das famílias.
Em Manaus, quase 100 horas de trabalho vão apenas para comprar comida
Na capital amazonense, o trabalhador que recebe um salário mínimo precisou trabalhar 99 horas e 28 minutos para conseguir comprar a cesta básica de junho.
Isso significa que praticamente metade da jornada mensal é destinada exclusivamente à compra dos alimentos considerados essenciais, antes mesmo do pagamento de despesas como aluguel, energia elétrica, água, transporte, internet ou medicamentos.
Manaus aparece na 17ª posição entre as capitais brasileiras no ranking do tempo necessário para adquirir a cesta básica. Na média nacional, os trabalhadores precisaram dedicar 105 horas e 51 minutos para comprar os produtos básicos.

Mais da metade do salário fica no supermercado
O estudo também mostra que, após o desconto da contribuição previdenciária, os brasileiros gastaram, em média, 52,02% da renda líquida apenas com a cesta básica em junho, restando menos da metade do salário para todas as demais despesas do mês.
O percentual é superior ao registrado no mesmo período de 2025, indicando que a alimentação continua pressionando o orçamento das famílias.
Feijão foi o principal responsável pela alta
Entre os alimentos que mais encareceram em junho, o destaque foi o feijão. O feijão carioca ficou mais caro em todas as capitais pesquisadas. Em Manaus, o aumento chegou a 18,92% apenas no mês, reflexo da redução da área plantada e de problemas climáticos que afetaram a produção.
O feijão preto também apresentou aumento em todas as cidades analisadas. Além dele, outros produtos importantes para a alimentação registraram alta, como a carne bovina de primeira e o leite integral, contribuindo para elevar ainda mais o custo da cesta básica.
Café, açúcar e óleo de soja deram algum alívio
Nem todos os produtos registraram aumento. O café em pó apresentou queda de preços em grande parte das capitais, favorecido pelo avanço da colheita da safra 2026/2027. O açúcar também ficou mais barato devido ao aumento da moagem da cana, enquanto o óleo de soja registrou redução impulsionada pela maior oferta do produto.
Apesar dessas quedas, elas não foram suficientes para compensar a alta de alimentos essenciais, especialmente do feijão e da carne.
Salário ainda está distante do necessário
Para o Dieese, os dados reforçam que o salário mínimo atual continua insuficiente para cumprir o papel previsto na Constituição.
O levantamento mostra que, enquanto o piso nacional é de R$ 1.621, uma família de quatro pessoas precisaria de pouco mais de R$ 8,1 mil por mês para conseguir pagar alimentação, moradia, transporte, saúde, educação, lazer e outras despesas básicas, evidenciando a distância entre o rendimento da maioria dos trabalhadores e o custo real de vida no país.


