Ação, parte da iniciativa chamada Contenção, teve confronto e retirada de barricada que impediu a passagem de um blindado

As Polícias Militar e Civil mobilizaram, nesta quinta-feira, mil homens para realizar a Operação Contenção, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. Os policiais foram recebidos a tiros no local e barricadas chegaram a ser incendiadas em vários pontos do conjunto de comunidades, cortado por oito bairros, e com territórios controlados pelo traficante Antônio Hilário Ferreira, o Rabicó ou Coroa. O objetivo da ação era o de tentar cumprir 25 mandados de busca e apreensão e outros 44 mandados de prisão, entre eles o do próprio Rabicó. Apontado como um dos integrantes da cúpula do Comando Vermelho(CV), o traficante conseguiu fugir.
Apesar do registro de tiroteios, não houve mortos, feridos ou presos. Durante a ação, que segundo o governo estadual serviu para colher informações que serão utilizadas em investigações em andamento sobre o CV, foram removidas 25 toneladas de barricadas. Três veículos roubados foram recuperados. Outros dois carros e três motos foram apreendidos, além de uma quantidade de drogas ainda não contabilizada. A operação foi a maior realizada no Rio de Janeiro desde da que deixou 122 pessoas mortas — entre elas cinco agentes — nos complexos do Alemão e da Penha, no dia 28 de outubro de 2025.
— Nenhuma facção vai se impor sobre o Estado do Rio de Janeiro. Estamos enfrentando o crime organizado de forma firme, planejada e com o uso da melhor tecnologia e inteligência policial. Essa operação mostra que nossas forças de segurança estão unidas e preparadas para recuperar cada território dominado pelo medo e pela violência — declarou o governador Cláudio Castro.
A ação desta quinta-feira contou com policiais do Batalhão de Operações Especiais, do Batalhão de Choque e da Coordenadoria de Recursos Especiais(Core). Eles tiveram o apoio de 20 blindados, duas aeronaves, retroescavadeiras para retiradas de barricadas, 123 viaturas e quatro ambulâncias do Grupamento de Salvamento e Resgate, sendo duas delas blindadas. Apesar do grande aparato descolocado do Rio para São Gonçalo, a Secretaria de Segurança disse não trabalhar com a hipótese de que possa ter ocorrido um vazamento da operação.
Antônio Hilário Ferreira, de 61 anos, tem em seu nome quatro mandados de prisão expedidos pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, segundo dados do site do Conselho Nacional de Justiça. Ele foi condenado a mais de 27 anos de prisão e cumpria pena num presídio de segurança máxima em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, até ser beneficiado pela Justiça e solto em 2019. Segundo a polícia, o traficante é suspeito de ordenar assaltos em São Gonçalo com a finalidade de arrecadar dinheiro para a facção. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública, só de janeiro a outubro deste ano, foram registrados no município 115 roubos de cargas, contra 70 ocorridos no mesmo período de 2024. A comparação revela um aumento de 64% de ocorrências deste tipo de delito. Já roubo de celular subiu 47% nos dez primeiros meses de 2025, em relação ao mesmo recorte do ano passado, em São Gonçalo.

Devido à operação, desta quinta-feira, a Secretaria de Educação de São Gonçalo informou que seis unidades no Complexo do Salgueiro suspenderam as aulas: Marinheiro Marcílio Dias, Pastor Haroldo Gomes, Salgado Filho, João Saldanha, Professora Niuma Goulart Brandão e Umei Professora Natalina Muniz de Oliveira. Sete unidades de saúde também não funcionam.
Um relatório do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF) e do Instituto Fogo Cruzado o aponta que o Comando Vermelho segue em expansão, avançando de forma contínua pelo estado. Segundo o estudo, são quatro milhões de pessoas na Região Metropolitana do Rio vivendo sob controle ou influência do crime organizado — a facção responde por mais de 98% da área sob controle e influência de criminosos. Rabicó é o principal nome do CV na região.
Entre 2016 e 2020 — período classificado pelos pesquisadores como de “grande expansão”, marcado pelo colapso das UPPs e pela crise fiscal do estado — o controle territorial do CV aumentou, impulsionado pela movimentação de integrantes para áreas da Baixada e do Leste Fluminense.
Há pouco mais de cinco anos o Complexo do Salgueiro foi palco de uma tragédia que deixou um adolescente de 14 anos morto, durante uma ação conjunta das polícias Federal e Civil. João Pedro Mattos Pinto brincava em casa com amigos, em 18 de maio de 2020, quando, segundo parentes, agentes chegaram atirando. O menino foi atingido por um disparo de fuzil pelas costas e chegou a ser socorrido de helicóptero.
A casa, que era de um tio de João, ficou com marcas de mais de 70 disparos. Segundo as investigações, o tiro de fuzil que matou o adolescente partiu da arma de um policial. Três agentes viraram réus por homicídio duplamente qualificado.

