
Operação apura esquema com emendas parlamentares. Reportagem percorreu três estados e encontrou cidades sem asfalto, construtoras que enganaram a população e trabalhadores que levaram calote.
A Operação Overclean, investigação da Polícia Federal que apura o desvio de verbas de emendas parlamentares chegou à 9ª fase na última segunda-feira (12). O alvo foi o deputado federal Félix Mendonça Júnior (PDT-BA), o quarto parlamentar investigado na operação.
Foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão por ordem do ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), em imóveis e endereços ligados ao deputado em Brasília e na Bahia. O STF também determinou o bloqueio de R$ 24 milhões de contas ligadas a investigados.
O Fantástico percorreu mais de 2.500 km em três estados do Nordeste para descobrir o destino das emendas. A reportagem encontrou obras fantasmas, construtoras que enganaram a população e trabalhadores que levaram calote
A PF conseguiu rastrear o envio de milhões de reais em emendas de Mendonça Júnior para ao menos três municípios da Bahia. Em Boquira, foram R$ 4 milhões. Em Ibipitanga, quase R$ 13 milhões. E em Paratinga, pouco mais de R$ 8 milhões.
Em junho de 2025, policiais apreenderam documentos e o celular de Marcelo Gomes, assessor do deputado. O material, obtido pelo Fantástico, inclui várias conversas de Marcelo com o empresário Evandro Baldino.

Uma das conversas trata de pagamentos aos prefeitos das três cidades que receberam emendas de Mendonça Júnior: Beto, de Ibipitanga, Marcel, de Paratinga, e Alan, de Boquira. Os três eram prefeitos dos municípios que receberam os valores das emendas.
Em uma das mensagens, a pergunta: “Vai ser PIX ou papel?”
Evandro responde: “Ibipitanga é PIX. Paratinga é PIX. Estou tentando falar aqui com o Alan pra ver como vai ser o dele”. No dia seguinte, ele envia a mensagem “Alan, Boquira, 40 mil” e pergunta se Marcelo conseguiu fazer a transferência.
Em outras mensagens, os dois comemoram o recebimento do dinheiro. “Ibipitanga tá cheio de platita”, escreveu Marcelo. “Tu conferiu se la platita caiu?”, disse Evandro.
O deputado federal Félix Mendonça Júnior disse que jamais negociou a execução de emendas parlamentares e nunca indicou ou intermediou a contratação de empresas para realizar obras em municípios.
O parlamentar afirmou que vem colaborando com as investigações da Polícia Federal e que espera o esclarecimento dos fatos de forma célere.
A reportagem não conseguiu localizar as defesas de Marcelo Gomes e Evandro Baldino.
Asfalto fantasma na Bahia
O Fantástico acompanha a Operação Overclean desde a primeira fase, em dezembro de 2024. Na época, o programa esteve em Campo Formoso, na Bahia, e mostrou a espera pelo asfaltamento de uma estrada. Um ano depois, o asfalto ainda não chegou.
Parte do dinheiro para o asfalto fantasma veio de uma emenda de 2021 dentro do orçamento secreto, que não identifica o autor do repasse.
O projeto virou um convênio entre a prefeitura de Campo Formoso e a empresa estatal Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales dos São Francisco e Parnaíba).
A Codevasf informou que R$ 8 milhões corresponderiam à contrapartida da prefeitura. E que, ao realizar ação de fiscalização, identificou inconsistências que comprometem a continuidade da execução.
O prefeito de Campo Formoso é Elmo Nascimento (UNIÃO), irmão do deputado federal Elmar Nascimento (UNIÃO-BA).
O superintendente regional da Codevasf na época era Miled Cussa Filho, indicado por Elmar para o cargo. Miled disse que alertou a prefeitura e os órgãos de controle sobre as irregularidades e que foi demitido da Codevasf por colaborar com as investigações.
“Encaminhei para o Ministério Público Federal, CGU [Controladoria-Geral da União], relatando todas as irregularidades dos convênios e aí eu fui demitido”, disse Miled.
Um relatório da PF menciona que a CGU fez uma auditoria sobre as obras e, a partir da análise de uma planilha de emendas, deduziu que o valor foi enviado pelo deputado Elmar Nascimento.
O Fantástico procurou o deputado, que não quis gravar entrevista. Por mensagem, ele negou o envio de emendas para essas obras em Campo Formoso.
Calote em trabalhadores
O caminhoneiro Jaelson Brito é morador de Campo Formoso e foi contratado para trabalhar na obra. Ficou sem estrada e sem salário.
“No início, a empresa pagou o primeiro mês. No segundo mês, a gente trabalhou. Depois, ficamos fazendo as medições e sempre atrasando, atrasando. Passou dois, três meses, aí não recebemos. Eu não recebi. Meu prejuízo ficou em R$ 28 mil”, afirmou.

