
Enquanto a concessionária Águas de Manaus afirma ter ampliado investimentos e alcançado destaque nacional no saneamento, documentos oficiais recentes e registros operacionais levantados pelo Portal Tucumã indicam um cenário de instabilidade no abastecimento da capital. Em comunicado divulgado em 18 de março, a empresa destacou que Manaus aparece como a quarta capital que mais investe no país, mas dados dos rankings nacionais mostram queda no atendimento e perdas elevadas no sistema.
Dados do Ranking do Saneamento 2026 (ano-base 2024) mostram que o Indicador de Atendimento Total de Água (ITA) caiu de 97,98% em 2025 para 97,13%, interrompendo a trajetória de avanço e afastando a cidade da meta de 99% prevista no marco legal. A redução ocorre em um contexto de crescimento populacional, com 2.279.686 habitantes, e indica que a expansão da rede não acompanhou a demanda, mantendo parte da população fora do atendimento pleno.

Perdas chegam quase à metade
Outro ponto crítico identificado nos relatórios é o nível de eficiência operacional. Manaus registra 45,25% de perdas na distribuição, o que significa que quase metade da água tratada não chega ao consumidor final. Além disso, o índice de 693,03 litros desperdiçados por ligação ao dia supera em mais de três vezes o teto de excelência definido pelo governo federal, enquanto as perdas no faturamento chegaram a 65,12% no levantamento anterior, indicando dificuldades na conversão da produção em receita.
Apesar de figurar entre as capitais que mais investem em termos absolutos, o dado per capita revela outra dimensão do problema. O investimento médio anual de R$ 123,15 por habitante permanece abaixo dos R$ 225,00 estimados pelo PLANSAB como necessários para universalizar o serviço, evidenciando uma diferença entre o volume total aplicado e o esforço efetivo por cidadão.
Os impactos desse cenário se refletem em indicadores sociais e de saúde pública. Na Região Norte, onde Manaus se insere, a taxa de afastamento por doenças respiratórias chega a 523,3 casos por mil habitantes, associada a condições de saneamento insuficientes. O mesmo estudo aponta disparidades econômicas relevantes, com rendimentos médios de R$ 593,21 para quem não tem acesso pleno ao serviço, frente a R$ 2.950,23 entre aqueles atendidos.

Interrupções constantes
Paralelamente aos dados estruturais, registros com datas verificáveis em fontes oficiais e na imprensa mostram que as interrupções no abastecimento seguem ocorrendo com frequência. Em 16 de setembro de 2025, houve denúncias de falta de água em diversos bairros, enquanto em 1º de novembro moradores relataram dias seguidos sem fornecimento. Já em 8 de dezembro, uma falha no fornecimento de energia afetou sistemas de produção e distribuição, ampliando o impacto.
No início de 2026, os episódios se concentraram em curto intervalo de tempo. Em 20 de fevereiro, problemas operacionais em sistema de poço resultaram em desabastecimento, seguido por nova interrupção em 23 de fevereiro após fortes chuvas. A persistência das falhas foi registrada em 27 de fevereiro, indicando continuidade dos efeitos e instabilidade no sistema ao longo de dias consecutivos.
A sequência se intensificou em março. Em 3 de março de 2026, uma falha eletromecânica interrompeu diretamente o fornecimento, e, dois dias depois, em 5 de março, problemas na Estação de Tratamento de Água da Ponta das Lajes comprometeram a produção e afetaram o abastecimento em larga escala. A proximidade entre os episódios evidencia a repetição de falhas operacionais e impactos externos no sistema de distribuição.
Em comunicado oficial, a empresa informou que, em 21 de março de 2026, às vésperas do Dia Mundial da Água, realizou manutenção emergencial mecânica na Estação de Tratamento de Água (ETA) II da Ponta do Ismael, o que levou à interrupção temporária da produção de água tratada na unidade.
No dia anterior, 20 de março, a concessionária já havia iniciado uma manutenção emergencial para reparar um vazamento na ETA 1, também localizada na Ponta do Ismael, com impacto no abastecimento em diversas zonas da cidade. A previsão era de normalização gradual em até 24 horas após a conclusão dos serviços.
Esses episódios se somam a uma sequência de ocorrências no mesmo período. Em 18 de março, outra manutenção emergencial na Estação de Tratamento de Água da Ponta das Lajes interrompeu temporariamente a produção, afetando áreas das zonas Leste e Norte. Já em 19 de março, falhas relacionadas à queda de energia provocaram oscilações no abastecimento em setores da cidade.

Águas de Manaus atribui variações a crescimento urbano
Em nota, a Águas de Manaus afirmou que a variação no Indicador de Atendimento Total de Água (ITA) está relacionada ao crescimento acelerado da capital, que ganhou cerca de 250 mil habitantes em dez anos, segundo o IBGE. A concessionária sustenta que o serviço foi universalizado em 2023 e segue avançando para áreas de expansão, incluindo comunidades em becos, palafitas e regiões de rip rap. Como parte dessa estratégia, a empresa destacou o lançamento do programa +Águas, que prevê a implantação de mais de 80 quilômetros de redes em 16 comunidades em 2026, com investimento superior a R$ 32 milhões, além de um aporte estimado em R$ 150 milhões nos próximos três anos.
Sobre os índices de perdas, a empresa argumenta que houve redução significativa desde o início da operação, passando de 74,95% em 2020 para 45,25% em 2024. Segundo a concessionária, o resultado é atribuído a ações de combate a vazamentos, regularização de ligações e investimentos em tecnologia, aliados ao monitoramento da expansão urbana após a universalização do serviço.
Em relação aos investimentos, a concessionária afirmou que houve crescimento de 339% desde o início das operações, com o valor médio por habitante passando de R$ 28,05 em 2018 para R$ 123,15. A empresa também destacou que, no período considerado pelo Ranking do Saneamento, Manaus ocupa a quarta posição entre as capitais que mais investem, com mais de R$ 1,4 bilhão aplicados, e que, em dados atualizados até 2026, o montante ultrapassa R$ 2,3 bilhões.
Quanto às interrupções no abastecimento registradas entre 2025 e 2026, a Águas de Manaus classificou os episódios como pontuais e já solucionados. A empresa afirmou que, devido à complexidade do sistema da cidade, manutenções programadas e intervenções emergenciais são necessárias, especialmente em estruturas estratégicas como as estações da Ponta do Ismael e da Ponta das Lajes, e fazem parte de ações preventivas e corretivas para evitar impactos maiores no abastecimento.

