Mobilização iniciada por moradores venezuelanos em Manaus reúne voluntários e doadores para levar ajuda humanitária às vítimas

Quando soube que a família de sua melhor amiga havia morrido no terremoto que atingiu a Venezuela, Nordys Rosal decidiu transformar o luto em solidariedade. Morando há nove anos em Manaus, a venezuelana passou a integrar uma rede de voluntários que arrecada alimentos, medicamentos e insumos médicos para as vítimas da tragédia.
“Quando vi a magnitude do desastre, pensei que muita gente precisaria de ajuda. Nós nos organizamos sozinhos e, logo depois, muitas pessoas começaram a se juntar à campanha”, relata.
Segundo Nordys, a família de sua melhor amiga estava em La Guaira, uma das áreas atingidas pelo terremoto. “Fizemos de tudo para ajudar a encontrar a família, mas infelizmente recebemos a notícia de que os quatro não resistiram”, lamenta.
Desde o início da mobilização, a campanha já realizou 11 envios de donativos para a Venezuela. Entre os itens mais necessários estão medicamentos, insumos médicos, fraldas, leite infantil e produtos voltados para crianças.
O número de mortos provocados pelos fortes terremotos que atingiram a Venezuela no fim de junho subiu para 3.685, segundo o governo venezuelano. A tragédia também deixou pelo menos 16.700 feridos e 17.907 pessoas desalojadas, ampliando a crise humanitária no país. Os dados foram atualizados nesta terça (7).
A resposta internacional na área da saúde está sendo coordenada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), que enviaram equipes às regiões afetadas. Avaliações realizadas em oito hospitais entre La Guaira e Caracas apontaram que três unidades sofreram danos estruturais e que todas precisam de apoio externo imediato para manter o atendimento às vítimas.
Solidariedade une brasileiros e venezuelanos
Outro ponto de coleta funciona no restaurante venezuelano Canaima Gourmet, sob coordenação da voluntária venezuelana Nurelkis Tovar, responsável pelas doações no local. Ela explica que a campanha nasceu do sentimento de solidariedade diante do sofrimento das vítimas.
“A ideia surgiu ao ver a gravidade da situação e o sofrimento de tantas famílias afetadas. Como venezuelana morando em Manaus, senti que não podia ficar de braços cruzados. Decidi mobilizar amigos, voluntários e a comunidade para arrecadar doações e levar esperança a quem mais precisa.”
Embora tenha começado de forma independente, a mobilização ganhou força rapidamente e hoje reúne voluntários, amigos e integrantes das comunidades venezuelana e brasileira. Mesmo sem familiares diretamente atingidos, Nurelkis afirma que conhece diversas pessoas que perderam parentes ou tiveram suas casas destruídas.
“É uma situação muito triste que afeta todo o povo venezuelano, mesmo quem está longe.”
Os voluntários recebem alimentos não perecíveis, água potável, medicamentos, materiais de primeiros socorros, itens de higiene pessoal, fraldas, leite e fórmulas infantis, além de luvas, máscaras, seringas, aparelhos para medir pressão e glicemia, nebulizadores e ração para cães e gatos.
Segundo Nurelkis, alimentos, água, medicamentos e materiais médicos seguem sendo as maiores prioridades.
Como as doações chegam à Venezuela
A logística da campanha já está estruturada. Parte das doações é transportada de Manaus até a fronteira com a Venezuela, com apoio da empresa Caburaí Transporte, que disponibilizou ônibus para a iniciativa. Outra parte segue em veículos particulares até Santa Elena de Uairén.
A partir da fronteira, voluntários recebem o material e fazem o encaminhamento aos centros de distribuição responsáveis por levar os donativos às áreas mais afetadas, incluindo Caracas.
Como o transporte gera despesas com combustível e logística, os organizadores também recebem contribuições financeiras para custear os envios. Neste momento, ainda não há previsão para o encerramento da campanha.
Paralelamente à mobilização comunitária, a Prefeitura de Manaus também tem enviado ajuda humanitária ao país vizinho. Segundo o prefeito Renato Junior, uma segunda remessa, com 230 toneladas de alimentos, colchões, roupas e outros donativos, será transportada nos próximos dias pelo Exército Brasileiro. A primeira remessa, de 200 toneladas de mantimentos, já foi entregue e distribuída em território venezuelano.
Ajuda que atravessa fronteiras
Em Caracas, a ajuda enviada de Manaus já começou a chegar às mãos de voluntários que atuam diretamente no atendimento às famílias atingidas. Uma das responsáveis pela distribuição é a venezuelana Nathalie Omran, que passou a atuar como voluntária após o terremoto e recebeu o contato da amiga Nurelkis Tovar para ajudar na entrega dos donativos enviados do Amazonas.
Questionada sobre o que sentiu ao saber que pessoas em Manaus estavam se mobilizando para ajudar a Venezuela, Nathalie respondeu:
“Me senti profundamente agradecida. Primeiro, a Deus, por colocar pessoas no nosso caminho com um gesto tão grande de querer nos ajudar e estender a mão aos nossos irmãos. Também fiquei muito orgulhosa dos venezuelanos que estão fora do país e de tantas pessoas que se somaram a essa missão.”
Ela também fez um apelo para que a corrente de solidariedade continue.
“Que não nos esqueçam. Ainda falta muito. O processo de recuperação será longo e muito difícil. Agora, mais do que nunca, essas famílias precisam de nós. Vêm dias difíceis, mas confio plenamente em Deus que vamos superar essa tempestade. Não nos soltem, irmãos. Deus abençoe a todos.”
“Toda ajuda faz diferença”
Os organizadores reforçam que a tragédia terá impactos por muitos meses e que a necessidade de ajuda continuará mesmo após o fim da comoção inicial.
“Não podemos deixar de ajudar, por pouco que seja. São mais de 30 mil famílias afetadas e agora, mais do que nunca, precisam de nós. Esse trabalho não termina em uma semana. Daqui a 15 dias, um mês, essas pessoas continuarão precisando de comida, água e insumos médicos”, destaca Nordys.
Nurelkis faz um apelo semelhante.
“Às vezes pensamos que uma única doação não fará diferença, mas quando muitas pessoas fazem um pouco, conseguimos transformar a realidade de quem perdeu quase tudo. Este é um momento de solidariedade e humanidade. Se você puder ajudar, faça isso com o coração. Sua contribuição pode levar esperança e salvar vidas.”

