Segundo polícia, pelo menos 25 pessoas suspeitas de integrar o grupo criminoso são investigadas

Um esquema financeiro responsável por lavar dinheiro da facção criminosa Comando Vermelho(CV), comandado por Edgar Alves de Andrade, o “Doca”, um dos chefes da cúpula do grupo criminoso, e por Carlos da Costa Neves, o “Gardenal”, seu principal operador e homem de confiança, foi desarticulado, nesta terça-feira, pela Polícia Civil do Rio de Janeiro. Segundo a investigação, valores arrecadados pelo tráfico em comunidades do Rio, de São Gonçalo e de Juiz de Fora, em Minas Gerais, foram remetidos para duas contas bancárias na cidade de Pontes e Lacerda, no Mato Grosso, município que fica próximo da região que faz fronteira com a Bolívia. A Justiça determinou o sequestro de vários bens usados pela quadrilha, incluindo duas fazendas,32 veículos e o bloqueio de R$ 600 milhões.
A suspeita é a de que as propriedades rurais localizadas no Mato Grosso, uma delas com 183 hectares, eram utilizadas de alguma maneira para os negócios irregulares do CV. Já se sabe que o esquema teria movimentado em dois anos um valor em torno de R$ 630 milhões. Parte deste dinheiro teria sido usada para a compra de drogas, entre elas cocaína, e para aquisição de armas utilizadas pela facção. A investigação descobriu que valores arrecadados pelo CV no Morro da Mangueira, na favela de Manguinhos, na favela Final Feliz, em Guadalupe, no Complexo do Chapadão, em Costa Barros, no Complexo da Penha, e no Jardim Catarina, em São Gonçalo, além de Juiz de Fora, em Minas Gerais, eram depositadas em contas usadas por um agropecuarista, na cidade de Pontes e Lacerda. Ele e outras 24 pessoas suspeitas de envolvimento no esquema estão sendo investigadas. Para cumprir 39 mandados de busca e apreensão, relacionados ao grupo criminoso, a Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou, nesta terça-feira, mais uma fase da Operação Contenção. A ação contou com policiais da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco/IE), responsável pela investigação, com agentes da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), homens da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), e de unidades do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE), e ainda com o apoio da Polícia Civil de Minas Gerais e do Mato Grosso.

O Doca e o Gardenal determinavam o envio dos valores arrecadados com a exploração territorial e venda de drogas para serem depositados por mulas financeiras. Tudo era pulverizado em duas contas correntes com destino ao Mato Grosso. A gente conseguiu identificar o proprietário dessas contas, que é um indivíduo que utiliza o subterfúgio de ser agropecuarista, quando, na verdade, transita esse dinheiro do tráfico de drogas, não só do Rio de Janeiro, mas também de outros estados da federação. E a gente está falando aí de um dos principais lavadores de dinheiro do CV— explicou o delegado Jefferson Ferreira do Nascimento, da Draco.
Segundo o delegado, o material apreendido na ação será analisado e vai servir para abastecer uma nova fase da investigação.
— Agora a investigação prossegue. A gente vai analisar agora este material que foi apreendido para posteriormente, com a análise da quebre de sigilo fiscal e bancário, a gente culminar com pedidos de prisão—disse.
Segundo a polícia, a investigação começou há um ano após uma troca de informações com o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O trabalho teve apoio do Comitê de Inteligência Financeira e Recuperação de Ativos (Cifra). A ação reforçou que o funcionamento do CV não se sustenta apenas com a venda de drogas, mas principalmente graças a um sistema de lavagem de dinheiro, responsável por receber, ocultar, movimentar e reinserir valores ilícitos no sistema financeiro. O esquema se valia de mulas financeiras: pessoas ligadas ao tráfico de drogas, à extorsão de moradores e à exploração de serviços ilegais eram usadas para realizar depósitos em dinheiro vivo.
De acordo com a Polícia Civil, a escolha de Pontes e Lacerda com um dos principais pontos de concentração financeira do CV ocorreu por conta da sua localização próxima à Bolívia. Além do município mato-grossense, as equipes cumpriram mandados de busca e apreensão, nesta terça-feira, na capital carioca; em municípios da Baixada Fluminense; em Silva Jardim, no interior do Rio; e em Juiz de Fora, em Minas Gerais.

