Infectologista explica como o clima seco, as altas temperaturas e a exposição à fumaça podem afetar o sistema respiratório e orienta sobre os principais sinais de alerta

Em meio ao período de estiagem e às altas temperaturas registradas no Amazonas, o ar-condicionado se tornou um dos principais aliados da população para aliviar o calor. No entanto, o uso contínuo do aparelho, especialmente em ambientes fechados e com baixa umidade, exige alguns cuidados para evitar o agravamento de problemas respiratórios.
A combinação entre calor intenso, ar seco, ambientes climatizados e fumaça de queimadas pode aumentar a irritação das vias respiratórias e favorecer o surgimento ou agravamento de sintomas.
Ar-condicionado pode afetar a respiração?
Segundo Dessana Chehuan, infectologista da Hapvida, o ar-condicionado pode reduzir a umidade relativa do ambiente e ressecar as mucosas do nariz e da garganta.
“O ar-condicionado reduz a umidade relativa do ambiente, ressecando as mucosas do nariz e da garganta. Isso compromete o mecanismo natural de proteção, que remove partículas e microrganismos para fora das vias aéreas. Com a mucosa ressecada, esse sistema de defesa fica menos eficiente, facilitando a entrada de vírus e bactérias.”

Ambientes fechados aumentam circulação de vírus
Além do ressecamento das mucosas, a especialista alerta que ambientes fechados e climatizados podem favorecer a circulação de vírus respiratórios quando há uma pessoa contaminada no local.
Influenza, vírus sincicial respiratório (VSR) e rinovírus estão entre os agentes que podem circular nesses ambientes.
“Ambientes fechados e climatizados favorecem a circulação repetida do mesmo ar, aumentando a concentração de vírus respiratórios, como influenza, VSR e rinovírus, quando houver alguém contaminado no local.”
Outro cuidado está relacionado à manutenção dos equipamentos. Filtros e dutos que não recebem higienização adequada podem acumular fungos e ácaros, contribuindo para o aparecimento ou agravamento de problemas como rinite alérgica, sinusite e crises de asma.
A mudança brusca de temperatura também merece atenção, principalmente para pessoas que já possuem doenças respiratórias.
“A troca brusca de temperatura, como sair da rua quente para um ambiente muito frio, também pode estressar as vias aéreas e desencadear broncoespasmo em pessoas predispostas, especialmente aquelas com fatores de risco ou doenças pulmonares prévias.”
Qual é a temperatura ideal?
Durante os períodos mais quentes do ano, uma das principais dúvidas é sobre como utilizar o ar-condicionado sem exagerar no resfriamento do ambiente.
A orientação da infectologista é manter uma temperatura confortável, evitando extremos.
“O ideal é manter a temperatura entre 23 e 24 graus Celsius, evitando extremos de frio. Também é importante evitar a exposição direta e prolongada ao jato de ar frio.”
A manutenção do aparelho também deve fazer parte da rotina, principalmente quando ele é utilizado durante várias horas por dia.
“É importante fazer a manutenção e a limpeza regular dos filtros. Em situações de uso intenso, o ideal é que essa limpeza seja realizada a cada 15 a 30 dias.”
Renovação do ar é importante
Outro cuidado recomendado é permitir a renovação do ar dos ambientes climatizados. Mesmo com o aparelho funcionando, portas e janelas podem ser abertas periodicamente por alguns minutos, quando as condições externas permitirem.
“É importante arejar o ambiente periodicamente, abrindo portas ou janelas por alguns minutos ao dia para renovar o ar. Também pode ser utilizado umidificador de ar ou até mesmo recipientes com água para ajudar a amenizar o ressecamento.”
A hidratação também tem papel importante durante o período de calor e baixa umidade.
“Manter uma boa hidratação, principalmente com água, ajuda a manter as mucosas úmidas e contribui para a proteção das vias respiratórias.”
Fumaça das queimadas aumenta preocupação
No Amazonas, os cuidados ganham ainda mais importância durante o período seco devido à presença de fumaça provocada por queimadas.
A fumaça contém material particulado fino, capaz de penetrar profundamente no sistema respiratório e alcançar os alvéolos pulmonares.
“No período seco amazônico, a fumaça das queimadas traz material particulado fino, que penetra profundamente nos pulmões, chegando aos alvéolos. Isso provoca inflamação das vias aéreas, pode agravar quadros de asma e DPOC e aumentar o risco de infecções respiratórias.”
Segundo Dessana Chehuan, a fumaça também prejudica o chamado clearance mucociliar, mecanismo responsável por ajudar o organismo a remover partículas e microrganismos das vias respiratórias.
Ar-condicionado e fumaça podem somar efeitos
A preocupação aumenta quando a exposição à fumaça acontece simultaneamente ao uso frequente do ar-condicionado.
De acordo com a infectologista, os dois fatores podem atuar de maneira cumulativa sobre o sistema respiratório.
“O problema é que os dois fatores se somam. A mucosa já ressecada pelo ar-condicionado fica ainda mais vulnerável à agressão da fumaça, criando um efeito cumulativo de irritação e inflamação.”
A fumaça proveniente das queimadas florestais é especialmente preocupante pela concentração de partículas finas e gases irritantes.
“A fumaça de queimadas florestais é particularmente prejudicial pela quantidade de material particulado fino e gases irritantes, como monóxido de carbono e compostos orgânicos voláteis. Além disso, ela pode atingir grandes áreas urbanas simultaneamente e entrar nas residências por frestas e por sistemas de ventilação ou ar-condicionado mal vedados.”
Quando procurar atendimento médico?
Apesar de tosse, irritação na garganta e desconforto respiratório poderem ocorrer após exposição ao ar seco ou à fumaça, alguns sintomas indicam que é necessário procurar atendimento médico.
Entre os principais sinais de alerta estão:
falta de ar ou dificuldade para respirar;
frequência respiratória aumentada;
dor no peito;
febre alta persistente por mais de três dias ou que retorna depois de uma melhora;
confusão mental;
sonolência excessiva;
recusa alimentar ou de líquidos em crianças;
prostração.
“Falta de ar, dificuldade para respirar, aumento da frequência respiratória, dor torácica e febre alta persistente são sinais que precisam de atenção. Também é importante observar confusão mental, sonolência excessiva e, no caso das crianças, recusa alimentar ou de líquidos e prostração.”
Crianças e idosos exigem atenção
Algumas condições respiratórias também precisam de acompanhamento mais cuidadoso, principalmente entre pessoas que fazem parte dos grupos de risco.
Pneumonia, bronquiolite, principalmente em bebês, crises graves de asma e exacerbações da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) estão entre os quadros que exigem maior atenção.
“Idosos, crianças pequenas, gestantes e pessoas imunossuprimidas precisam de uma atenção especial. Nesses grupos, qualquer sintoma respiratório deve ser avaliado mais precocemente, principalmente quando existe piora do quadro ou dificuldade para respirar.”
Cuidados durante o período de estiagem
Com o calor intenso e a presença de fumaça em diferentes regiões do Amazonas, a recomendação é combinar medidas para reduzir a exposição aos fatores que podem prejudicar a respiração.
Manter o ambiente climatizado em temperatura confortável, realizar a limpeza dos filtros, renovar o ar periodicamente, evitar o contato direto com o jato frio e manter uma boa hidratação são algumas das medidas recomendadas.

