
Um dos principais aliados políticos no interior do Amazonas do senador Omar Aziz, o prefeito afastado de Coari, Adail Pinheiro, passou a usar tornozeleira eletrônica por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), uma semana após a Operação Dinastia do Lago atingir a estrutura política e administrativa comandada por ele e pelo filho, o deputado federal Adail Filho (MDB-AM). A nova medida cautelar foi divulgada nesta quarta-feira (23) e ocorre no contexto da investigação que apura suspeitas de fraude em licitações, desvio de recursos públicos, corrupção, peculato e lavagem de dinheiro em contratos da Prefeitura de Coari.
Adail Pinheiro foi afastado do cargo durante a operação deflagrada pela Polícia Federal em 16 de setembro, quando foram cumpridos 29 mandados de busca e apreensão em Manaus e Coari. Adail Filho, apontado como principal alvo, também foi alvo de busca no Amazonas; a investigação tramita no STF por meio da Petição 15.889/DF, relatada por Moraes, e alcança movimentações financeiras e contratos relacionados ao município.
A conexão política entre a família Adail e o senador Omar Aziz (PSD) aparece nas próprias declarações públicas de Adail Filho durante a atual disputa pelo Governo do Amazonas. O deputado declarou apoio à candidatura de Omar e afirmou: “Quero dizer que o Omar é um grande amigo, um grande aliado político que tem ajudado o Estado do Amazonas como poucos e estou com Omar”. A relação é mencionada no contexto político da operação, sem que os elementos apresentados atribuam ao senador participação nas irregularidades investigadas contra a família Adail.
A investigação que levou Adail Pinheiro à tornozeleira começou após a prisão em flagrante de Cesar de Jesus Gloria Albuquerque e outros dois empresários, em maio de 2025, no Aeroporto de Brasília. Eles transportavam aproximadamente R$ 1,25 milhão em espécie em um voo entre Manaus e Brasília, e a análise posterior de documentos e aparelhos eletrônicos apreendidos levou os investigadores a identificar movimentações financeiras consideradas suspeitas e relações com empresas e contratos da Prefeitura de Coari.
Segundo a documentação do STF, a apuração havia sido inicialmente instaurada pela Justiça do Distrito Federal para investigar possível lavagem de dinheiro. A investigação avançou para recursos públicos federais destinados a municípios, inclusive valores provenientes de emendas parlamentares individuais, e passou a examinar movimentações atribuídas às empresas investigadas e aos políticos Adail Filho e Adail Pinheiro.
Emendas de Omar entram no contexto da investigação
Em paralelo à Operação Dinastia do Lago, o ministro Flávio Dino, também do STF, encaminhou à Polícia Federal pedido para investigar possíveis crimes relacionados à execução de três Emendas Pix destinadas a Coari, que somam R$ 25.732.425. Duas delas, no total de R$ 19.020.000, foram indicadas por Omar Aziz, enquanto a terceira, de R$ 6.712.425, foi indicada pelo senador Plínio Valério.
Uma das emendas de Omar, no valor de R$ 10 milhões, tinha entre as destinações a aquisição de mobiliário para escolas municipais das zonas urbana e rural e equipamentos e insumos de informática para unidades de saúde. A outra, de R$ 9.020.000, previa a locação de caminhões e máquinas para limpeza pública, além da aquisição de combustíveis e lubrificantes; a emenda de Plínio Valério também previa equipamentos e insumos de informática para unidades de saúde.
O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou, segundo o relatório encaminhado ao STF, “fortes indícios” de superfaturamento e de não utilização dos recursos federais nas contratações analisadas. A auditoria apontou ainda que a movimentação do dinheiro dificultou a rastreabilidade, porque os valores deixaram as contas específicas das transferências e foram encaminhados para contas municipais utilizadas também para movimentar outras receitas.
Dos R$ 19 milhões indicados por Omar Aziz, aproximadamente R$ 10 milhões foram transferidos para uma conta utilizada pelo município como “conta de passagem”, dificultando a identificação da aplicação específica dos recursos. Os R$ 6.712.425 indicados por Plínio Valério também foram transferidos para contas de Coari que movimentavam outras receitas municipais; o pedido encaminhado à PF busca apurar onde os recursos foram utilizados e se houve eventual desvio de dinheiro público.
Os recursos indicados por Omar também aparecem relacionados a contratos examinados pelo TCU. No Pregão Presencial nº 52/2023, para locação de máquinas destinadas à limpeza pública, a W. Fernandes de Souza Ltda. venceu com desconto de 0,2% e recebeu R$ 1.639.900,00, enquanto os auditores apontaram ausência de documentos suficientes para comprovar a execução dos serviços.
Outro procedimento analisado foi o Pregão Presencial nº 79/2023, destinado à aquisição de combustíveis e lubrificantes e que resultou na Ata de Registro de Preços nº 9/2024. A empresa Evandy Saturnino de Lima – EPP, única participante, venceu com desconto de 0,003%, e os pagamentos alcançaram R$ 3.730.521,95; o TCU registrou ausência de informações como placas dos veículos, quilometragem e quantidade efetivamente abastecida.
A fiscalização sobre os recursos também resultou no Acórdão 1.732/2026-TCU-Plenário, de 1º de julho de 2026, que determinou a abertura de processo apartado de Tomada de Contas Especial para apurar o débito de R$ 9,02 milhões e as responsabilidades relacionadas à perda de rastreabilidade. Entre os agentes submetidos a procedimentos de citação e audiência estão o ex-prefeito Keitton Pinheiro, os secretários Rodrigo Alves da Costa e Diego Guimarães da Silva e o pregoeiro Pedro André da Silva.
A relação entre Adail Filho e Omar Aziz foi explicitada pelo deputado também ao mencionar o programa “Amazonas Forte de Novo”, lançado pelo senador e citado por Adail Filho como uma articulação que reuniu Omar, prefeitos do interior e outras lideranças. O deputado afirmou ainda ter “grande consideração” por Omar e destacou a trajetória política do senador, enquanto os documentos sobre as Emendas Pix registram que R$ 19,02 milhões indicados por Aziz foram destinados a Coari.
A família Adail já aparece em procedimentos anteriores relacionados à administração e à política de Coari. Em 2017, o Ministério Público do Amazonas (MPAM) instaurou procedimento sobre a contratação, por inexigibilidade, do escritório do advogado Antônio das Chagas Ferreira Batista pela Prefeitura de Coari, então administrada por Adail Filho; em 2022, o irmão do deputado, Emanuel da Costa Pinheiro, foi abordado pela PF com R$ 34 mil em espécie e material de campanha eleitoral.


