Embora infecção pelo HIV não signifique mais uma sentença de morte, doença ainda carrega estigma social grande

Vivo com HIV há 19 anos. Quando eu tinha 17, meu namorado na época sabia do diagnóstico e me infectou de propósito”, diz Angélica Torquato, técnica de enfermagem e criadora de conteúdo que mora em Guarulhos, SP. Ela comentou em post nas redes sociais da Onda Digital, e entramos em contato com ela para falar sobre a sua história de vida e como é conviver com a doença.

“Tenho 36 anos e sou casada há seis”, disse Angélica. “Tenho uma filha de 9 anos, que é autista, e outra de 21. Quando eu tinha 16 anos, conheci um rapaz pelo Orkut, na época, e começamos a namorar. Com um ano e pouco de relacionamento, ele me pediu em casamento. Nesse dia, ele me contou que tinha Aids e que eu provavelmente já estava infectada, e que ele tinha feito aquilo de propósito para que eu ficasse com ele, porque senão eu não ia aceitar ficar com ele”.
Angélica continuou: “Mas a decisão dele acabou prejudicando a minha filha, porque eu estava amamentando. Ela não era filha dele, eu já a tinha há 2 anos e estava em amamentação. Assim, ela também foi prejudicada. Aceitei ficar com ele porque achei que ninguém mais ia me querer. Faltando uma semana para o casamento, ele sofreu um acidente, perdeu a memória e pouco depois faleceu. Cheguei a processá-lo, mas o processo não foi adiante devido ao falecimento dele”.
“Minha filha ficava muito doente por causa do vírus, e quando ela completou 12 anos eu e os médicos revelamos a ela o seu diagnóstico. Tudo isso causou danos psicológicos nela, ela tentou o suicídio algumas vezes, começou a usar drogas e a beber, e até hoje tem dificuldades com a adesão ao tratamento”, disse Angélica.
Sobre a convivência com a doença, Angélica falou: “Minha família toda sabia do meu diagnóstico, e nunca tive dificuldade de falar sobre ele. No final de 2024, mudou a gestão da prefeitura aqui de Guarulhos, e o contrato dos infectologistas onde faço tratamento não foi renovado. Então tivemos desfalque de médicos, e eu me expus em rede nacional, na Globo e no SBT, para denunciar a situação aqui na cidade. Assim, comecei a falar da minha história nas redes sociais, e a situação dos médicos foi resolvida”.
Finalmente, ela conclui: “Hoje uso minhas redes sociais para falar sobre Aids e outras ISTs, levar informação para as pessoas usando o meu conhecimento e a minha história de vida para quebrar os estigmas e preconceitos que ainda existem sobre o HIV”.
A Aids no Amazonas
De acordo com dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), houve uma queda no número de novos infectados com HIV no estado entre 2024 e 2025: de 3.018 para 2.908.
A maioria dos infectados é do sexo masculino, na faixa dos 20 a 39 anos. A transmissão de mãe gestante para filho se mantém estável, com cerca de 200 novos casos por mês, neste ano de 2026.
Em 2025, o número de novos infectados entre a população homossexual superou o de homens héteros: 815 contra 788 casos.
Os tratamentos à disposição hoje, porém, têm diminuído o número de mortes. Segundo o Ministério da Saúde, o Amazonas apresentou redução significativa nas mortes por aids entre 2023 e 2024. O número de óbitos caiu de 310 para 281, o que representa uma redução de 9,35 %. O resultado acompanha a tendência nacional: o país também reduziu em 13% os óbitos por aids, passando de mais de 10 mil para 9,1 mil no mesmo período, o menor número em três décadas.
Aids: O que é a doença?
O HIV (vírus da imunodeficiência humana) é um vírus que afeta o sistema imunológico, responsável por proteger o corpo contra doenças. Se a infecção por HIV não for tratada, pode levar à Aids (síndrome da imunodeficiência adquirida, na sigla em inglês).
Os primeiros casos da doença foram detectados no começo dos anos 1980, em países da África. O vírus foi identificado pela ciência em 1984.
O doutor Noaldo Lucena, infectologista, faz uma importante distinção: “É importante distinguir a pessoa vivendo com o vírus do HIV da pessoa com Aids. No início, na grande maioria dos casos, a pessoa com HIV não apresenta nenhum sintoma. Até chegar à fase da doença, da Aids, pode-se levar de 5 a 10 anos, dependendo das condições de vida da pessoa”.
Ele continua: “A doença age destruindo o sistema imunológico da pessoa infectada, que acaba morrendo em decorrência das doenças causadas por bactérias, fungos ou outras causas, e não pelo vírus HIV”.
O que fazer caso a pessoa suspeite que possa estar infectada? Noaldo responde: “Eu sempre aconselho: Tem vida sexual ativa? Independente da orientação sexual, deve-se fazer o teste de HIV pelo menos uma vez por ano. Se sua vida sexual é agitada, com muitos parceiros, então é importante que você se teste mais vezes”.
“É importante falar sobre a doença, divulgar, quanto mais informação melhor. Falar de prevenção para infecções sexualmente transmissíveis, e vacinação e exames periódicos são também ferramentas primordiais. Só assim podemos reduzir o estigma da doença. As pessoas ainda pensam que é uma doença de uma orientação sexual específica, e não é verdade. A maioria dos contaminados no mundo são os heterossexuais. A doença não é mais uma sentença de morte, pois hoje temos tratamentos que são muito efetivos”, conclui Noaldo.

