Mesmo integrando o mesmo grupo político, governador demonstra perfil mais centrista e pragmático na interlocução com o governo federal.

A política costuma ser mais revelada pelos gestos do que pelos discursos. E os últimos Diários Oficiais do Estado do Amazonas ajudam a compreender uma característica que diferencia o governador Roberto Cidade (União Brasil) de seu antecessor Wilson Lima (União Brasil).
Não se trata de rompimento político. Muito menos de divergência administrativa. Ambos pertencem ao mesmo grupo e compartilham a mesma base de sustentação. A diferença está na forma de enxergar a política e as relações institucionais.
Wilson Lima construiu sua trajetória identificado com o campo da direita. Durante sua passagem pelo governo, especialmente após a ascensão do bolsonarismo, manteve uma relação marcada pela cautela e pelo distanciamento político em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Roberto Cidade parece operar por outra lógica.
Sem nunca ter se declarado um político de direita ou de esquerda, Cidade transita com desenvoltura pelo campo do centro político. Sua atuação na Assembleia Legislativa e, agora, no Governo do Estado, demonstra preferência por uma política de interlocução ampla, sem barreiras ideológicas rígidas.
Os dois últimos Diários Oficiais do Estado são um retrato dessa postura.
Por exemplo, a edição de 15 de junho, segunda-feira, abriu sua capa com a manchete: “Durante visita do presidente Lula, Governo do Amazonas defendeu pavimentação da BR-319”. O texto destaca a agenda conjunta do governador e do presidente na rodovia considerada estratégica para o Amazonas.
Já a edição de 16 de junho voltou a colocar Lula no principal espaço do Diário Oficial. A manchete foi: “Governo do Estado destaca investimentos e reforça avanço das obras na BR-319, durante visita de Lula”. A fotografia principal mostra Roberto Cidade ao lado do presidente durante agenda em Manaus.
Não é um detalhe trivial.
O Diário Oficial é a principal publicação institucional do Estado. Ao abrir duas edições consecutivas destacando a presença do presidente da República, o governo sinaliza qual mensagem deseja transmitir.
E a mensagem parece clara: para Roberto Cidade, a relação com Brasília deve ser construída a partir dos interesses do Amazonas, independentemente da coloração ideológica do ocupante do Palácio do Planalto.
Essa postura já havia ficado evidente durante a visita presidencial ao estado, fim de maio. Diferentemente do que ocorreu em boa parte da gestão passada, Cidade acompanhou Lula nas agendas públicas e participou dos eventos que resultaram em anúncios de investimentos para infraestrutura, logística e recuperação da BR-319.
O gesto possui também leitura eleitoral.
Ao não estabelecer barreiras políticas em relação ao presidente, Cidade se apresenta como uma alternativa capaz de dialogar com diferentes segmentos do eleitorado amazonense, inclusive aqueles que simpatizam com Lula e que hoje encontram no senador Omar Aziz (PSD) uma referência política.
É uma construção que não o afasta do grupo político de Wilson Lima. Mas evidencia um traço próprio de sua personalidade política: o de um dirigente que prefere a ponte ao muro, a interlocução ao isolamento e o pragmatismo à disputa ideológica.
Num estado historicamente acostumado a políticos de centro, essa pode ser uma das marcas mais importantes da futura candidatura de Roberto Cidade.

