
Lula se ausenta do 1º de Maio, mas setores da esquerda evitam críticas em meio a crise do governo
Após uma semana turbulenta para o governo federal — marcada pela recusa de um ministério por parte de um indicado do União Brasil e por uma operação da Polícia Federal envolvendo fraudes no INSS — o presidente Lula (PT) decidiu não comparecer às celebrações do 1º de Maio organizadas pelas centrais sindicais em São Paulo. Apesar da ausência inédita desde o início de seu terceiro mandato, setores da esquerda têm evitado críticas públicas ao presidente.
A decisão de Lula ocorre em meio a pressões por mudanças trabalhistas, como o fim da escala 6×1, e a uma crescente reprovação do governo nas pesquisas. Ainda assim, mesmo grupos historicamente mais críticos dentro da esquerda optaram por preservar a imagem do presidente, de olho na disputa eleitoral de 2026.
Sindicatos que já demonstraram insatisfação com o governo minimizaram a ausência do petista nas comemorações, tradicionalmente caras ao PT. Fontes próximas ao Palácio do Planalto afirmaram, sob reserva, que Lula ao menos cumpriu o protocolo ao receber lideranças sindicais em Brasília nesta terça-feira (29), ouvindo suas pautas.
Segundo um desses interlocutores, Lula teme repetir o esvaziamento do ato do ano passado, quando discursou para um público reduzido em Itaquera, na zona leste da capital paulista. Há também o receio de que sua presença seja associada aos sorteios de carros anunciados por algumas centrais para atrair público — prática criticada inclusive por entidades como a CUT, que se recusou a organizar o evento este ano.
Aliados avaliam que a associação entre Lula e sorteios promovidos pelas centrais poderia gerar desgaste adicional à sua imagem, alimentando críticas da oposição, especialmente de parlamentares com forte presença nas redes sociais.
No 1º de Maio do ano passado, diante da baixa adesão popular, o próprio presidente reconheceu: “O ato está mal convocado. Nós não fizemos o esforço necessário para levar a quantidade de gente que era preciso levar”.
Crise no Congresso pressiona Lula, mas esquerda evita ataques diretos ao governo
A recente recusa do deputado Pedro Lucas Fernandes (União Brasil-MA) ao convite para assumir o Ministério das Comunicações, 12 dias após o anúncio oficial, acendeu um alerta no Palácio do Planalto. Para evitar novos desgastes com o Congresso, o governo tem optado por agir com cautela e evitar confrontos públicos com os partidos do centrão.
As críticas pela recusa do ministério, no entanto, se voltaram mais ao União Brasil — que passa por um processo de reorganização após oficializar sua federação com o PP — do que ao governo em si ou à ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT). A compreensão, entre parlamentares e lideranças da base, é de que Lula depende fortemente do centrão para aprovar pautas no Legislativo, o que impõe limites às reações do Planalto.
Mesmo com cargos no governo, esses partidos não devem apoiar Lula em sua tentativa de reeleição em 2026, o que ajuda a explicar por que setores da esquerda têm adotado um tom mais moderado ao longo da semana. Para eles, manter a estabilidade política é prioridade.
Outro foco de desgaste para o governo é a operação da Polícia Federal que investiga fraudes no INSS e atinge aliados do ministro da Previdência, Carlos Lupi (PDT). A situação gerou tensão interna. Um deputado petista avaliou que Lula está “entre a cruz e a espada”: se decidir demitir Lupi, corre o risco de perder o apoio do PDT no Congresso.
A direção do PDT já alertou o Planalto de que, se o ministro for afastado, o partido deixará a base. Com 17 deputados e três senadores, a legenda reforça sua importância num momento em que cada voto conta para o governo.

